
Mafalda Caldas saltou para as luzes da ribalta após a sua participação no MasterChef Portugal, em 2025. Mas, muito antes disso, já alimentava o sonho de ter um projeto próprio na área da cozinha. A Wonder Braz acabou por surgir nesse mesmo ano, sob a forma de uma food truck itinerante e, deste então, tem vindo a conquistar cada vez mais espaço em eventos gastronómicos por todo o país. O conceito é uma homenagem à técnica do à Brás, que dá vida a várias versões deste prato: do clássico bacalhau às propostas com pato, caranguejo e cogumelos. Falámos com Mafalda Caldas para conhecer melhor a sua história e os planos que tem para o futuro.
Conte-nos um pouco sobre o seu percurso profissional. Como surgiu a cozinha?
Sempre gostei muito de cozinhar, e fazê-lo para os outros sempre foi a minha “love language”, mas nunca pensei fazer disso profissão. Até que, em 2020, tive a ideia de abrir a food truck e, portanto, desisti da minha carreira e fui profissionalizar-me. Tirei um curso de Cozinha, estagiei noutra food truck e, finalmente, em maio de 2025, abri a Wonder Braz. Só depois disso me candidatei ao MasterChef. Apesar do “síndrome do impostor”, fui passando as várias etapas, até que recebi o avental branco e entrei no programa. Ter saído em 9.º lugar, ter tido o melhor prato numa prova e ter recebido vários elogios dos chefes empoderou-me bastante.
Porquê a aposta num conceito de food truck?
Por um lado, porque o investimento inicial é bastante mais acessível. Abandonar a minha carreira e tentar enveredar por uma nova já era suficientemente arriscado… Portanto, preferi não colocar todas as minhas poupanças em algo que podia não ser bem recebido (porque o conceito era totalmente novo em Portugal)!
Por outro lado, porque a itinerância pode jogar a favor de um negócio de restauração. É aquela velha máxima de: “Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé”. Ou seja, a food truck permite-me estar sempre em eventos onde sabemos à partida que haverá clientes.
Por último, há a questão da proximidade. Cozinhar para todas as pessoas que estão, literalmente, a menos de um metro de ti é quase como uma extensão de todas as vezes em que cozinhei para os outros como parte da minha tal “love language”.
O que a encanta nesta relação mais direta e próxima com os clientes?
O feedback imediato, muitas vezes nem sequer verbal. Quando trabalhas na cozinha de um restaurante ou hotel, estás “lá enfiada”, podes nem ter visibilidade para a sala e só ficas a saber, por terceiros — os teus colegas da sala —, o que a tua comida provocou nos comensais. Na food truck, não! Quando metem a primeira garfada à boca e vem de lá aquele “Ummm”, tu estás ali… Mesmo quando estou de costas, porque estou a cozinhar o pedido seguinte, oiço. Além disso, também gosto muito de ficar ali “à janela”, a falar com as/os clientes. Aprende-se imenso!
O street food é um conceito bastante trabalhado lá fora, mas em Portugal ainda é um mercado por explorar…
A ideia de servir Bacalhau à Brás (entre outras versões) na caixinha partiu precisamente da identificação dessa falta de representatividade da cozinha tradicional portuguesa na cena da street food nacional. Portanto, o que falta é precisamente isso: mais comida de tacho na rua. Que possa ser comida só com um garfo, em pé ou em movimento. Encontramos muita comida de rua internacional, muita comida portuguesa no pão, mas pouca comida tradicional no prato/tigela/caixa. E não só o nosso receituário é extenso e rico, como a minha “cozinha de produção” de 2 m × 2 m não deixa nada a desejar a algumas cozinhas de restaurantes! Até um arroz de pato seria exequível ali!
Na sua opinião, porque é que a street food ainda não é mais explorada em Portugal?
Sou obrigada a discordar em parte desta afirmação. Acho que o setor está bem e recomenda-se, beneficiando em larga escala do nosso bom clima e — claro — do crescimento do turismo. Basta passear pelas ruas da capital e ver como estão cheias de bicicletas a vender Piña Colada. O que é pena, lá está, é não haver uma maior aposta na street food de identidade portuguesa! É sempre de identidade estrangeira: hambúrgueres, pizzas, cachorros, etc.
Se houvesse um maior reconhecimento por parte dos meios e dos “opinion makers” (que hoje em dia são os foodies, influencers gastronómicos, etc.), que, por sua vez, influenciam as escolhas da maioria da população, podíamos mudar essa cultura de sobrevalorização de tudo o que é estrangeiro e subvalorização do que é nosso.
Convites como o do Nelson Marques, criador e curador do Ladies Night Fest, ou o das Edições do Gosto, que organizam o Congresso de Cozinha, para uma food truck como a Wonder Braz estar presente e ter “palco” em eventos onde se dá destaque a chefes de renome e à alta gastronomia contribuem muito para elevar a street food e são um passo no sentido da valorização do setor.
Porquê a escolha por trabalhar o conceito "À Bras"?
A ideia surgiu um dia, à hora de almoço, no parque empresarial onde eu trabalhava. Estava lá uma food truck e, como estávamos em período pós-pandémico e aquilo parecia uma “cidade fantasma”, decidi ir prestigiá-los. Fiquei um pouco a falar com o dono enquanto ele cozinhava e pareceu-me logo que este era um modelo de negócio interessante. Depois, fui para o escritório comer e comecei a pensar — precisamente — que era uma pena que a street food fosse sempre sinónimo de comida internacional. E comecei a perguntar-me que prato tradicional português seria exequível numa cozinha de produção daquele tamanho e que pudesse ser comido de forma prática (aliás, mais do que muitas comidas portuguesas no pão), até que tive a ideia deste prato… que foi o primeiro que aprendi a cozinhar.
Aos 19 anos, quando fui fazer Erasmus para Madrid, eu não sabia nem estrelar um ovo. A minha mãe deixou-me naquela cidade cheia de enlatados, frascos e comida processada e só uma receita de “comida de verdade”: Bacalhau à Brás.
Cozinhei aquele prato muitas vezes, para amigos nacionais, internacionais… Não havia ninguém que não adorasse. Além de que, mais do que um prato, é uma técnica, e foi aí que passei da ideia de me centrar num monoproduto para centrar toda a carta da Wonder Braz numa monotécnica.
Que opções podemos encontrar na Wonder Braz? E em que tipo de eventos podemos encontrar a food truck?
Tudo à Brás, mas não só a versão tradicional. Eu quis ser o mais inclusiva possível porque, se a tua profissão/paixão é dar de comer aos outros, queres dar de comer ao maior número de pessoas possível. Portanto, temos também uma versão de carne (com pato marinado em laranja e paprika fumada); de marisco (com caranguejo do Namibe e ovas de caranguejo em cima); de cogumelos pleurotus e de alho-francês. Estas duas últimas versões são vegetarianas, mas também podem ser veganas, uma vez que, na Wonder Braz, substituímos o ovo.
Para saberem onde nos podem encontrar, basta seguirem-nos no Instagram e consultarem a nossa agenda mensal. De momento, ainda somos itinerantes, mas, em breve, queremos ter também um sítio fixo.
Quais são os maiores desafios de trabalhar com uma food truck?
Estarmos completamente à mercê do clima e dos elementos. Se há cozinhas de restaurantes e hotéis onde passas muito calor por causa dos fornos, fogões, fritadeiras, entre outros, imaginem estar a cozinhar com os mesmos equipamentos numa food truck com 30 e muitos graus “lá fora”. Até os frigoríficos ficam loucos!
Mas isso ainda consegue ser menos mau do que estar a chover e os clientes nem sequer aparecerem porque não vão comer ao ar livre com o tempo assim.
Outro desafio que, na minha opinião, pode jogar muito a nosso favor é o facto de a cozinha estar completamente à vista de toda a gente. Temos de ser ainda mais criteriosos na aplicação das regras. E o quão bem fizermos as coisas pode servir como bitola para que as/os clientes escolham a tua food truck em detrimento de outra para comerem.
Olhando para o futuro, quais são os planos para a Wonder Braz?
O grande plano, o sonho que eu quase não me atrevo a sonhar, seria conseguir que alguém acreditasse no conceito da Wonder Braz tanto como eu e quisesse apoiar a sua expansão!
Tenho a certeza de que os pratos fariam muito sentido em balcões em centros comerciais. Street food que é, na realidade, good food. Sabores que todos reconhecemos, de conforto; ingredientes de qualidade, confecionados de forma “honesta”; pratos rápidos de cozinhar e servir e ainda mais práticos de comer.
Não vejo porque é que uma marca como a Wonder Braz não possa estar perto de todos, um pouco por todo o país, mas, claro, falta-me capacidade operacional para isso.
O que, de momento, está ao meu alcance é arranjar uma segunda food truck para ficar com uma fixa e continuar com outra itinerante.
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