Sílvia Baptista: o sabor da identidade 

Manja Posta

July
2026

Sílvia Baptista: o sabor da identidade 

Entre a técnica e o instinto, Sílvia Baptista fala sobre o caminho que tem traçado na pastelaria e sobre a criação da Tarte Dona Isabel, um doce que nasceu na Lourinhã e se tornou símbolo de identidade e afeto. Nesta conversa, partilha a importância das memórias, do território e da emoção na forma como trabalha e ensina. 

 

Na Lourinhã, há uma tarte que nasceu quase por acaso e acabou por se tornar um símbolo de identidade. A Tarte Dona Isabel começou como uma receita simples, criada por Sílvia Baptista no contexto de um projeto com crianças, mas depressa ganhou vida própria. Hoje, é mais do que um doce: é uma homenagem à terra, às suas gentes e à memória de uma mulher que marcou a história local. 

Sílvia Baptista é pasteleira, professora e criadora. Fala da pastelaria com um brilho sereno, como quem fala de algo que se constrói com tempo, rigor e emoção. No seu trabalho, técnica e instinto convivem lado a lado: há espaço para o cálculo, mas também para o sentir, para aquele momento em que o sabor e a textura “simplesmente sabem o que querem ser”. Entre farinhas, abóboras e memórias doces, Sílvia tem encontrado a sua forma de estar no mundo, uma pastelaria com alma, feita de território e de sentido de lugar. 

Nesta conversa com a manja, fala sobre o nascimento da Tarte Dona Isabel, sobre o papel das tradições e da intuição no processo criativo, e sobre a importância de fazer doces que contem histórias. Com a serenidade de quem constrói o seu caminho passo a passo, Sílvia partilha a ideia de que a pastelaria pode ser muito mais do que um ofício: pode ser uma linguagem de afeto, de identidade e de pertença. 

 
 

Como nasceu a ideia da tarte Dona Isabel? Foi um desafio profissional, um acaso ou uma vontade pessoal de criar algo identitário? 

A Tarte Dona Isabel nasceu um pouco por acaso. Na altura, estava a dar aulas a crianças no projeto “Mini Chefs” e desafiei-as a participarem no Festival Anual da Abóbora da Lourinhã. Para isso, desenvolvi várias receitas com abóbora, e uma delas foi precisamente a tarte. A ideia era envolver as crianças e mostrar-lhes o valor dos produtos locais de forma divertida e criativa. 

Acabei também por participar e o feedback foi surpreendentemente bom. Foi nesse momento que percebi que a receita tinha algo especial, uma ligação genuína à terra e à comunidade. Mais tarde, senti que fazia todo o sentido dar-lhe um nome com história, e assim nasceu a Tarte Dona Isabel, como homenagem a Isabel Mateus, fundadora do Museu da Lourinhã, uma mulher inspiradora que representa bem a força e a identidade da nossa terra. 



Quando começaste a trabalhar na receita, o que foi mais difícil de equilibrar: o sabor, a textura ou o conceito? 

Na verdade, não tive grande dificuldade. A tarte ficou surpreendentemente boa logo à primeira. O sabor, a textura e o equilíbrio entre os ingredientes resultaram de forma muito natural, parecia que a receita já sabia o que queria ser. Só precisei de melhorar o aspeto visual, ajustando o acabamento com o açúcar em pó e a canela, para lhe dar aquele toque final que a tornasse mais apelativa. Às vezes, as melhores criações são mesmo assim, simples, espontâneas e com uma harmonia que acontece quase sem esforço. 

 
 
A Dona Isabel é um símbolo local. Sentes essa responsabilidade de representar a Lourinhã em cada fatia da tua tarte? 

Sinto, sim, mas é uma responsabilidade muito bonita. A tarte acabou por ganhar um significado que vai além da receita em si. Tornou-se uma forma de representar a Lourinhã, as suas tradições e as pessoas que lhe dão vida. Cada vez que alguém prova a Dona Isabel, sinto que está a saborear um pouco da nossa história e da nossa terra. 
Trabalhar com produtos locais, como a abóbora, é uma forma de valorizar o território e de mostrar que a pastelaria pode também contar quem somos. Por isso, mais do que uma responsabilidade, é um orgulho, poder levar a Lourinhã em cada fatia e ver como algo tão simples pode gerar tanto carinho e reconhecimento. 

 
 
O que mais te comove quando vês alguém provar, pela primeira vez, a tarte Dona Isabel? 
O que mais me comove é ver a expressão das pessoas naquele primeiro instante. Muitas vezes não dizem nada, ficam só a saborear, com um sorriso discreto, e esse silêncio diz tudo. Há algo de muito especial nesse momento em que o sabor desperta memórias ou simplesmente provoca prazer genuíno. 

Sinto uma alegria enorme por ver que algo que nasceu de forma tão simples consegue tocar as pessoas dessa maneira. É aí que percebo que o meu trabalho faz sentido, quando um doce desperta emoção, sem precisar de grandes explicações. 

 

O que distingue o teu modo de trabalhar dos pasteleiros que se limitam a reproduzir receitas tradicionais? 

Acho que o que me distingue é a forma como gosto de dar significado a tudo o que faço. Respeito muito as receitas tradicionais, são a base da nossa identidade, mas não consigo limitar-me a reproduzi-las tal como estão. Gosto de perceber a origem, o contexto e depois reinterpretá-las à minha maneira, acrescentando algo pessoal. Gosto de criar doces que contem uma história e que transmitam uma emoção. Trabalho muito com o instinto, mas também com rigor e intenção. Não quero apenas fazer algo que seja “bom”; quero que tenha alma, que diga algo sobre mim e sobre o lugar de onde venho. 

 
 

Como é o teu processo criativo? Trabalhas mais por método e teste, ou segues o instinto até “sentires” que está certo? 

Depende um pouco da ideia, mas na maior parte das vezes sigo o instinto. Gosto de pensar, imaginar o sabor e a textura antes de começar, mas é quando ponho as mãos na massa que tudo ganha forma. Há uma parte racional, claro, a técnica é fundamental, mas o que me guia é sempre o “sentir”. 

Muitas vezes, quando algo está certo, eu simplesmente sei. É uma espécie de intuição que vem da prática, mas também da ligação emocional ao que estou a fazer. E quando essa sensação aparece, não há dúvidas, é ali que o doce encontra o seu equilíbrio. 
 

 
A pastelaria é uma área muito técnica. Há espaço para emoção e intuição dentro da precisão? 
 Sim, e para mim tem de haver. A técnica é essencial, dá-nos segurança, consistência e controlo, mas é a emoção que dá vida ao que fazemos. Podemos medir tudo ao grama, controlar as temperaturas e seguir os tempos à risca, mas há sempre um momento em que entra o instinto, aquele toque pessoal que não se ensina. 

A pastelaria tem muito de sensorial. É preciso sentir as texturas, os aromas, o ponto certo. E é aí que a intuição entra. A técnica guia-nos, mas é a emoção que transforma uma receita num doce com alma. 

 
Há algum ingrediente ou textura que sintas ser a tua assinatura? 

Sim, sem dúvida. A abóbora é um ingrediente muito presente no meu trabalho e está naturalmente ligada à minha identidade e à da Lourinhã. Mas, se há produto que sinto verdadeiramente como a minha assinatura, é a Aguardente DOC Lourinhã. É um ingrediente nobre, com uma personalidade única, e adoro explorá-la em bombons e outras criações onde possa brilhar de forma elegante e equilibrada. 

Acho fascinante a forma como a aguardente pode acrescentar profundidade e caráter à pastelaria, sem se impor. Trabalhar com ela é também uma forma de valorizar o território e mostrar que a nossa região tem produtos com enorme potencial, mesmo fora do contexto tradicional. 

 

Achas que a pastelaria pode contar histórias? 

Acredito completamente que sim. Para mim, a pastelaria é uma forma de contar histórias, através dos sabores, das texturas e até das intenções que colocamos em cada criação. Cada doce pode carregar uma memória, um lugar ou uma emoção. 
Gosto de pensar que, quando alguém prova algo que fiz, não está apenas a saborear um doce, mas também uma parte da minha história, do território que me inspira e das pessoas que me marcaram. É isso que torna este trabalho tão especial, a capacidade de transformar ingredientes em sentimentos e experiências. 

 

Há algum sabor da infância que te inspire? 

Sim, muitos. Acho que os sabores da infância nunca nos abandonam, ficam guardados na memória e voltam sempre, mesmo quando não damos por isso. Lembro-me muito dos bolos caseiros, do cheiro do forno a aquecer a cozinha, das compotas a ferver lentamente, do açúcar a caramelizar. Essas memórias são uma espécie de ponto de partida para mim. Sempre que crio algo novo, procuro essa sensação de conforto e familiaridade que só os sabores da infância conseguem trazer. É como se, de alguma forma, eu tentasse devolver às pessoas um bocadinho dessa doçura simples e sincera. 

 

Quem é a Sílvia por detrás da pasteleira? O que te move, inspira e desafia fora da cozinha? 
Sou uma pessoa curiosa, atenta e muito ligada às pessoas e à natureza. Gosto de aprender, de observar e de perceber o porquê das coisas. Inspiro-me nas conversas, nos lugares, nas pessoas e até no silêncio, tudo pode ser um ponto de partida para criar. 
Sou também teimosa e determinada. Tenho uma vontade constante de fazer mais, de aprender mais e de ir sempre um pouco mais longe. Não consigo estar quieta, fora da cozinha, estou quase sempre agarrada aos livros, a pesquisar, a estudar e a testar ideias novas. É o meu modo natural de estar, aprender, experimentar e transformar o que descubro em algo que possa partilhar com os outros. Mas também tenho o meu momento de descanso, e esse é sagrado. Preciso desse tempo para recarregar, para abrandar o ritmo e voltar com a cabeça mais leve e o coração cheio de novas ideias. 

 


Sempre te imaginaste neste caminho da pastelaria, ou foi algo que foste descobrindo aos poucos? 
Foi algo que fui descobrindo aos poucos. Sempre gostei de doces, mas nunca imaginei que a pastelaria viesse a tornar-se o meu caminho de vida. A curiosidade levou-me a experimentar, a querer perceber como tudo funcionava, e, quando dei por mim, já estava completamente envolvida. 

O fascínio foi crescendo à medida que aprendia e percebia o potencial criativo que a pastelaria tem. É uma área onde posso juntar técnica, sensibilidade e emoção, e isso faz-me sentir realizada. Hoje olho para trás e percebo que, de certa forma, este caminho sempre esteve à minha espera, só precisei de me deixar ir e de o construir à minha maneira. 
 

Como te descreverias em três palavras quando estás a trabalhar? E em mais três quando não estás? 

A trabalhar: focada, exigente e apaixonada. 

Fora da cozinha: curiosa, determinada e inquieta, no bom sentido. Gosto de estar em movimento, de aprender, de criar. Mas também sei parar quando é preciso, aproveitar o silêncio e recarregar energias. 

 
 
O que mais te orgulha no teu percurso até agora? 

O que mais me orgulha é ter conseguido construir algo com identidade. A Doce Lourinhã não é apenas um espaço de trabalho, é um projeto com alma, que reflete quem sou, de onde venho e aquilo em que acredito. 

Orgulho-me de ter criado produtos que nasceram de ideias simples, mas que ganharam vida e significado, e de ver que as pessoas se reconhecem neles. Também me deixa feliz saber que consigo inspirar outros, sejam alunos, colegas ou quem apenas prova um doce e se emociona. 

Tudo o que fiz até agora tem sido com muito trabalho, persistência e coração. E é isso que me deixa tranquila, saber que o meu percurso tem sido verdadeiro, construído passo a passo, com autenticidade e amor pelo que faço. 

 
 
Se não fosses pasteleira, o que achas que estarias a fazer hoje? 

Sinceramente, acho que poderia fazer de tudo. Sempre fui criativa, engenhosa e muito adaptável. Tenho facilidade em aprender e em encontrar soluções, por isso acredito que me desenrascava em qualquer área que me despertasse interesse. Gosto de desafios e de pôr as mãos na massa, no sentido literal e no sentido figurado. Seja a criar, a ensinar, a organizar ou a inventar, preciso de sentir que estou a construir algo. Por isso, mesmo que não fosse pasteleira, sei que estaria a fazer algo com paixão e dedicação, porque é assim que encaro tudo o que faço. 

 

Estás a fazer o mestrado em Ciências Gastronómicas. De que forma é que essa experiência tem mudado a tua forma de olhar a pastelaria e a criação? 

O mestrado tem sido uma experiência muito enriquecedora e desafiante. Tem-me permitido olhar para a gastronomia, e, claro, para a pastelaria, de uma forma mais ampla, mais científica e mais consciente. Passei a perceber melhor o porquê das coisas, a questionar, a ligar a técnica à teoria, e isso tem mudado muito a forma como crio e ensino. 
Também me tem feito refletir sobre o papel da gastronomia na sociedade. Percebo cada vez mais que cozinhar pode ser uma ferramenta de aprendizagem, de partilha e até de inclusão. É um espaço onde cabem ciência, cultura e emoção, e é isso que quero continuar a explorar. 

No fundo, o mestrado veio confirmar o que sempre senti, que a pastelaria é muito mais do que fazer doces, é uma forma de pensar, comunicar e transformar. 

 
 
Quando pensas no futuro, imaginas-te a continuar a contar histórias doces através da pastelaria ou há outros caminhos que gostavas de explorar? 

Vejo-me a continuar a contar histórias doces, porque é o que mais gosto de fazer. A pastelaria é a minha forma de expressão e continua a surpreender-me todos os dias. Mas também me vejo, acima de tudo, a ensinar, a partilhar o que sei, a incentivar os meus alunos a experimentarem, a criarem e a encontrarem a sua própria voz. 
Tenho uma curiosidade enorme e gosto de aprender, por isso é natural que queira continuar a explorar outras áreas ligadas à criação, à educação e à investigação. O que me move é essa vontade de crescer e de ajudar outros a crescerem comigo. Acredito que o futuro passa por isso, continuar a fazer o que amo, mas também inspirar quem vem a seguir a fazê-lo com autenticidade, criatividade e paixão. 

 

Se tivesses de resumir tudo o que fazes, a tarte, o trabalho e a investigação, numa única frase, qual seria a tua mensagem “em forma de sobremesa”? 

Sou como uma tarte, doce q.b., com camadas de memórias, uma pitada de teimosia e, vá, um ligeiro toque de loucura. No final, levo sempre uma vaporizadela de Aguardente DOC Lourinhã, porque até a doçura precisa de um bocadinho de espírito! 

Autor:

Sónia Alcaso

Fotografia:

Humberto Mouco