Na Cozinha do Paço, Afonso Dantas faz um tributo ao Alentejo

Fogo Alto

December
2025

Na Cozinha do Paço, Afonso Dantas faz um tributo ao Alentejo

Um dos nomes em destaque na cozinha portuguesa, Afonso Dantas, com 26 anos, ainda passa discretamente por Évora, onde é chefe d’A Cozinha do Paço, restaurante inserido no terreno da produtora de vinhos Fita Preta, de António Maçanita. O restaurante está localizado na antiga cozinha do Paço do Morgado de Oliveira, edifício do século XIV, recuperado nos últimos oito anos pelo responsável. O espaço abriu no início deste ano.



Natural do Funchal, foi na ilha que Afonso começou a ganhar experiência. Mais tarde, partiu para França, onde o rigor, a técnica e a disciplina moldaram o seu percurso em cozinhas lideradas por Davy Tissot e Joseph Viola. Preparava-se para avançar com um projeto em nome próprio, depois de dois anos no restaurante Audax, quando surgiu o convite de Maçanita — uma proposta que viria a marcar o seu caminho e mudar a sua vida.

“A oportunidade de abrir um restaurante dentro de um paço medieval, carregado de história, integrado num terroir tão único e com tantas possibilidades dentro da propriedade, era difícil de ignorar”, conta.

A primeira coisa que fez ao chegar ao Alentejo foi um trabalho de pesquisa rigoroso e detalhado: “Procurámos conhecer os produtores locais, ouvir as suas histórias e compreender as tradições da região. Para além disso, estudámos a história do próprio paço, especialmente da cozinha original, que nos transmite uma energia e um contexto únicos.”

Com essa base, a construção do menu começou a ganhar forma. O Paço foi a grande inspiração: a arquitetura, a história e a ligação ao vinho. “Trabalhamos lado a lado com a adega da Fita Preta, o que nos permite pensar harmonizações e sabores de forma integrada.”

Nos menus de 6 ou 8 momentos, encontram-se pratos como “Feijoada de lula”, receita típica de Sines feita tradicionalmente por famílias de pescadores quando sobrava lula não vendida, e “Coscorão de borrego”, que combina três ingredientes essenciais da gastronomia alentejana: borrego, tomate e ovos. E há espaço para inspirações madeirenses? “Sim, mas são pequenos apontamentos. 95% do menu é alentejano.” A acompanhar a experiência, há quatro harmonizações com vinhos das adegas de Maçanita nas regiões do Alentejo, Douro, Açores e Madeira – lideradas pelo experiente sommelier, Francisco Cunha.

Especial destaque para o momento final do menu, servido com um pequeno twist: já depois da sobremesa, chega à mesa pão quente, feito a partir de soro de leite e feno. A refeição termina com uma vista impressionante sobre as vinhas da propriedade, acompanhada por três símbolos da região: pão, azeite e vinho.

Para o chefe, um dos maiores desafios destes primeiros tempos tem sido lidar com a sazonalidade. “Estando num meio rural, não temos a mesma facilidade de acesso a determinados produtos que encontraríamos numa grande cidade. Isso obriga-nos a olhar com atenção para o que existe aqui, a trabalhar profundamente o produto da região e a não procurar além do que o território nos oferece.”

Nos últimos meses, Dantas tem recebido chefes convidados para jantares a quatro mãos, como forma de “partilhar conhecimento e dar a conhecer o restaurante a amigos e colegas”. Para o próximo ano, mais colaborações serão anunciadas.

Autor:

Catarina Amado