
Aos 21 anos, chegou a Portugal vinda do Paraná, no Brasil. Era o ano de 2005. Da copa de um restaurante no Algarve a um percurso sólido em cozinhas nacionais, Angélica Salvador é um exemplo de perseverança e trabalho.
O seu In Diferente, aberto em 2019 no Porto, onde cruza as raízes brasileiras com as portuguesas, é também reflexo dessa evolução, recentemente distinguida com uma estrela Michelin. Angélica passa assim a integrar o grupo das primeiras mulheres chefes em Portugal a alcançar este feito.
Em entrevista à Manja, fala do seu percurso, do orgulho nas suas raízes e do que projeta para o futuro.
Que caminho fez o In Diferente até se tornar o restaurante que é hoje?
O In Diferente teve uma grande evolução ano após ano. Fomos sempre acompanhando o que se estava a desenvolver e melhorando, na medida do possível, a cada passo. Neste crescimento e evolução, o fine dining surgiu de forma natural e orgânica. Sempre demos importância à qualidade do produto e à técnica, que foram essenciais no processo criativo e no crescimento do restaurante.
Estás já na história como uma das primeiras mulheres em Portugal a conquistar uma estrela Michelin. Como é que esse reconhecimento te toca?
É verdade, estou muito feliz com esta conquista. Ser reconhecida desta forma dá-me ainda mais força, vontade de vencer e de lutar para concretizar os meus sonhos. Foi um caminho cheio de desafios até chegar aqui, mas é a prova de que, com trabalho, dedicação e consistência, o reconhecimento acaba por chegar.
Quando ouviste o teu nome na cerimónia da Michelin deste ano, o que sentiste?
Ainda tenho esse momento único na minha cabeça. Foi uma noite incrível! Já estava a vibrar com a conquista do Tiago [Bonito], muito emocionada, e, passados 3 ou 4 minutos, ouço “In Diferente”. Foi realmente uma loucura, uma felicidade a dobrar! Sabíamos que havia essa possibilidade, mas a verdade é que nunca sabemos se vai acontecer. Foi o resultado de anos de trabalho e esforço da minha equipa, sempre comigo, nas mudanças e em todos os desafios diários.
Como foi partilhar este momento com o teu marido, Tiago Bonito?
Foi uma noite verdadeiramente marcante nas nossas vidas, tanto a nível pessoal como profissional. Receber, no mesmo dia e no mesmo palco, uma distinção tão importante foi um momento muito especial para ambos e ficará para sempre na nossa memória. O Tiago e eu temos uma grande cumplicidade: partilhamos ideias, desafios e conquistas, seja no In Diferente, o projeto que desenvolvemos em conjunto, ou no Éon, que é um projeto dele. Receber esta estrela é, sem dúvida, algo que ficará para sempre nas nossas vidas.
Sentes que esta distinção traz um novo sentido de responsabilidade?
Sinto que sim, sem dúvida! Todas as conquistas são, acima de tudo, responsabilidades, e esta não é diferente. Mais do que nunca, é importante manter o rigor e a consistência e tentar levar a nossa proposta mais além. Queremos entregar ainda mais aos nossos clientes e corresponder à confiança de quem nos tem acompanhado.
Como defines o In Diferente neste momento? E o que esperas para o futuro?
O In Diferente cresceu muito desde que abriu, e orgulho-me disso todos os dias. Quero continuar a dar tudo por este projeto, juntamente com a minha equipa, e proporcionar uma experiência cada vez melhor aos nossos clientes.
De que forma cruzas as influências de Brasil e de Portugal na tua cozinha?
Desde o início que a ideia foi ter um forte cunho brasileiro na minha cozinha. Utilizo muitos produtos do Brasil e receitas inspiradas nas minhas origens e memórias. Por exemplo, já tivemos quindim, bolo de coco, moqueca e feijoada à brasileira no menu. Há sempre elementos da gastronomia brasileira nos menus do In Diferente.
Conta-nos a história de dois pratos da carta que sintas que representam bem essa identidade.
Já tive uma reinterpretação da feijoada à brasileira num snack, que representa muito bem a nossa típica comida de sábado em família e entre amigos. Atualmente, temos também uma sobremesa que conta a história das nossas festas juninas: consiste num “falso balão” de pipoca, recheado com caramelo e servido com gelado de milho-verde e algodão doce.
Numa entrevista ao Jornal Público disseste: “Ser mulher e brasileira num restaurante de cozinha portuguesa em Portugal é incomum.” Que desafios sentiste?
Não é incomum ser mulher e brasileira num restaurante de cozinha portuguesa, mas é, sim, um desafio. Portugal tem muitas burocracias: já é difícil montar um negócio sendo português, e quando se vem de outro país não é mais fácil. Tenho muitos amigos a trabalhar na área, inclusive alguns com quem já trabalhei. Referia-me às dificuldades de ser mulher e brasileira. O que mais senti foi por ser imigrante e a a dificuldade na aceitação por parte da sociedade em geral. Por exemplo, quando precisei de alugar uma casa, as dificuldades e burocracias foram enormes. Por outro lado, na cozinha, não me posso queixar: só tenho a agradecer a todas as pessoas ao meu redor. Ainda bem que este tema também está a evoluir para as futuras mulheres que trabalham nesta e noutras áreas.
Já estás cá há cerca de 20 anos. Dirias que tens duas “pátrias”?
Estou praticamente a chegar ao ponto em que vivi metade lá e metade cá, e sinto-me muito feliz. Já o disse e volto a dizer: faria tudo exatamente igual outra vez. Lá aproveitei e vivi; aqui tem sido uma aventura que também está a correr muito bem. Portugal foi o país que escolhi para chamar de meu também e que tão bem me acolheu. Sempre tive a sorte de me cruzar com pessoas que me ajudaram e que fazem parte do meu percurso, entre altos e baixos da vida que todos temos. Estou e sou muito feliz aqui.
Chegaste a Portugal sem experiência em cozinha e construíste aqui todo o teu percurso. O que diria a Angélica de então ao ver esta conquista hoje?
É verdade, quando cheguei não tinha ideia do que estava por vir. Comecei na copa de um hotel no Algarve e nunca mais saí, e ainda bem! Eu diria àquela Angélica para seguir sempre os seus sonhos, para nunca ter medo de arriscar e que ter medo é normal. Que, no fim, vai correr tudo bem.
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