

Falar de produtores é falar de quem trabalha com o tempo, mas nunca o controla. Nos últimos meses, os temporais tornaram isso ainda mais evidente. Chuvas intensas, ventos infernais, campos alagados, colheitas perdidas. Para quem produz, o risco deixou de ser exceção e passou a fazer parte da equação diária. Não é apenas uma questão climática. É económica, social e alimentar. Quando uma produção falha, falha muito mais do que um produto. Falha rendimento, falha estabilidade. Falha, diria eu, futuro. Os efeitos destes fenómenos não se medem apenas no imediato. Há culturas que não recuperam, solos que precisam de tempo, investimentos que voam para o espaço. Um ano difícil pode comprometer os anos seguintes. Ainda assim, muitos pequenos e médios produtores continuam a resistir a cada abalo. Ajustam calendários, reinventam práticas, experimentam soluções, muitas vezes sem margem de erro e com poucos apoios. A resiliência tornou-se parte do ofício. É neste contexto que importa recentrar o olhar sobre quem está na origem daquilo que comemos. Valorizar os produtores não é apenas falar de proximidade ou de identidade. É reconhecer o risco, o trabalho invisível e a fragilidade real de quem depende da terra e do mar. E, claro, sempre do clima. Proteger a produção é proteger o território. Exige políticas consistentes, cadeias de distribuição mais justas e consumidores atentos ao que está por trás de cada escolha. Não basta celebrar o produto final. Temos de celebrar também as condições em que ele nasce. Num tempo marcado pela instabilidade, importa também sublinhar aquilo que resiste. A recente vitória da democracia nas eleições presidenciais lembra-nos que há processos coletivos que funcionam quando são defendidos. E participados, pois claro! Tal como na agricultura, também na democracia o resultado nunca é garantido. Exige cuidado, presença e responsabilidade. Num país onde se vota, onde se escolhe e onde se protege o que é comum, há espaço para acreditar que também o futuro (seja da produção ou de qualquer outra área) pode ser pensado, defendido e cultivado em conjunto.
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