Projeto Balzac 

Manja Posta

Outubro
2026

#291

Projeto Balzac 

As aulas de cerâmica surgiram na minha vida numa altura em que não tinha nenhum hobby, só trabalhava. Nem pertencia ao clube das casadas, nem das mães, nem das socialonas do Instagram. 

Quando cheguei ao ateliê tinha menos do que um sonho, tinha apenas um projeto: fazer um prato com uma frase carimbada, tal como tinha visto no Pinterest. A frase? ‘BEGIN ANYWHERE’ 

‘DON’T LOSE YOUR FIRE’, ‘THEY CAN’T BREAK YOU’, ‘FAIL. LEARN’, ‘PARTE A LOIÇA TODA’ foram as que se seguiram. Cunhava as frases que precisava de ler. E como copywriter que sou, tentava que fossem sempre frases curtas com duplo sentido, aplicável à comida e à vida. 

Entretanto, estávamos em 2020, chega-me às mãos uma edição da INTER Magazine e deparo-me com este artigo: “(...) O primeiro banquete para saudar oficialmente a Cozinha Futurista aconteceu em novembro de 1930, num restaurante chamado Penna d’Oca, em Milão, onde foram servidos pratos como “gelado na lua”, “caldo de rosas e sol” e “corações oportunistas de alcachofra”. Decidi carimbar este menu futurista em três pratos. Seis anos depois, sou eu que escrevo nesta revista que tanto me inspirou. 

Com alguns pratos já feitos, fez-me sentido criar uma marca e dei-lhe o nome de Projeto Balzac. Uma celebração do escritor francês através do seu romance “A Mulher de Trinta Anos”, que fala das angústias, sonhos e desejos de uma mulher que não encaixava nos padrões e convenções sociais da época (primeira metade do séc. XIX) e foi motivo de escândalo, na mesma medida em que conquistou empatia. Para mim, a marca representa o elogio da experiência e da beleza dos pensamentos e conflitos de alguém que não quer ser diferente, só quer ter espaço para ser como é. Os pratos são o testemunho das minhas fases da lua. Curiosamente, percebi que muitas outras pessoas se identificam. Fases que têm tanto de pessoal como de transversal.  

O barro é um caprichoso termómetro emocional: se, quando ponho as mãos na massa, estou stressada, as emoções ficam lá marcadas, se quero apressar o processo, demoro o dobro do tempo. Aconselho a cerâmica a quem precisa de treinar a sua relação com a falha, o controlo e a gestão de expetativas.  

Por fim, agradeço à manja tudo o que nos põe no prato em termos de conhecimento e inspiração. 

Para ver os pratos que já saíram do forno: IG @projectobazac 


Nota: Este artigo saiu originalmente na edição 291 da revista Manja.

Autor:

Joana Pires

Fotografia:

Humberto Mouco