
David Jesus fixou-se no norte de Portugal em 2020, quando regressou de Espanha, onde trabalhava no restaurante três estrelas de Dabiz Muñoz, o DiverXO, para integrar um novo projeto. Em 2021, com 25 anos, arrisca-se sozinho e abre o Seiva, em Leça da Palmeira. A sua cozinha vegetariana, “do mundo, de base criativa e com atitude”, conquistou uma base sólida de fãs.
Mas os clientes pediam mais: um restaurante onde pudessem provar o lado mais tradicional do chefe. David atendeu ao pedido e nasce o Feitio, ao lado do Seiva.
Falámos com o chefe setubalense para saber mais sobre o novo restaurante.
Como surgiu a ideia para abrir o Feitio?
Já tinha o desejo de ter mais restaurantes e, quando vi a oportunidade ao lado do Seiva, acreditei que seria uma mais-valia. Os dois restaurantes partilham uma cozinha de produção, onde fazemos as preparações maiores. Inevitavelmente, como sou eu quem pensa a cozinha nos dois restaurantes, há parte do trabalho que faço no Feitio que influencia o Seiva. E o Seiva influencia no padrão, na responsabilidade, no rigor e no compromisso.
Os clientes do Seiva já te pediam um espaço onde pudessem comer outras coisas tuas, fora da cozinha à base de vegetais que fazes no Seiva?
Sim. O público do Seiva é essencialmente omnívoro e gosta do Seiva pela experiência, pelo sabor, pela visão e pelo ambiente. Contudo, há muita gente que, embora reconheça isso, não arrisca numa experiência apenas com vegetais (muito erradamente, a meu ver). Assim, sem canibalizar o Seiva, podem viver um momento honesto, com muito sabor, onde não têm de pensar demasiado no que está a ser servido e podem comer carne e peixe. O Feitio é bastante direto, quer na forma de cozinhar, quer no empratamento.
Como defines este restaurante?
O Feitio é um restaurante de cozinha tradicional e regional servida de forma direta, em tachos de barro e travessas. Temos cuidado na escolha dos produtos, adaptamos a carta à estação e usamos técnicas adaptadas para tirar o melhor proveito dos ingredientes. É um restaurante simples, com ambiente descontraído e comida muito boa. Temos a cozinha aberta, para que todos os convidados possam ver como cozinhamos e os produtos que usamos.
A equipa dos dois restaurantes é partilhada também?
Neste momento, tive de criar um núcleo de gestão partilhado para me ajudar, e polivalência para que todos vivam a mesma energia. Contagiar quem já estava no Seiva foi a melhor decisão. Algumas pessoas vieram do Seiva para o Feitio para tornar mais fácil a abertura.
Como foi o processo de criar esta carta, voltar aos teus sabores de infância, mais tradicionais?
Foi fácil, rápido e emocional. Basicamente, fui buscar o que comia na casa da minha avó paterna ao domingo. O restaurante tem pouco mais de duas semanas e já mudei a carta duas vezes. Isso é o que é bonito. Não muda em nada o que acontece no Seiva: cozinhamos o que nos faz sentir e o que faz sentido no melhor momento.
Podes destacar alguns dos teus pratos preferidos da carta?
A vitela no forno, um cachaço de vitela assado durante cinco horas, que se desfaz completamente. A minha avó fazia muito este prato quando preparava o pão, para aproveitar o calor do forno.
O choco frito, típico de Setúbal, que me remete para as tardes de verão na casa do meu pai.
O arroz de cabidela, o meu prato favorito. Foi o primeiro prato que me obrigou a ter contacto direto com o animal e com o prato. A minha avó fazia muito, e é também o prato preferido do meu pai (pressão emocional!). Para aprender a fazê-lo, a minha avó disse que só me ensinaria se eu matasse a galinha e fizesse tudo. E assim foi!
Os secretos com migas, uma carne maravilhosa que tiramos da barriga do porco preto, servida com migas alentejanas e massa de pimentão, receita do meu avô.
E a feijoada de choco, tradicional de Setúbal. Um prato de conforto que não se encontra a norte.
Quais as tuas expectativas para este espaço?
Espero que o restaurante cresça de forma saudável, entregando honestidade, memória e prazer a todos os que nos visitarem. Até agora, temos tido bastante procura e estou certo de que continuará a crescer. O Feitio representa a cozinha de sempre, adaptada aos tempos de hoje. Acredito que tem um papel fundamental na preservação do nosso património gastronómico.
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