Entrevista Francisca Dias: "Nunca quis ser a Chefe do Ano só pelo título."

Fogo Alto

Julho
2026

Entrevista Francisca Dias: "Nunca quis ser a Chefe do Ano só pelo título."

Com 34 anos, Francisca Dias é a Chefe do Ano 2026. Naquela que foi a sua segunda participação no concurso, levou a melhor sobre os restantes finalistas. Francisca junta assim o seu nome ao lote restrito de mulheres que já venceram o concurso (a última foi Ana Magalhães, em 2022).

Mais madura e experiente, a chefe do restaurante Esteva, em Borba, apresentou um menu mais próximo da sua ideia de cozinha, partindo da sazonalidade, do produto e de inspiração no receituário português. No fim, reuniu o consenso do júri com o melhor menu.

Falámos com Francisca para saber mais sobre a sua participação no concurso e os seus planos de futuro.

O que sentiste ao ser consagrada Chefe do Ano 2026?

Foi um momento muito especial. Ouvir o meu nome foi uma mistura de alegria, euforia e sentimento de dever cumprido. É um concurso muito respeitado e ser reconhecida pelos próprios colegas de profissão tem um significado enorme.

Tinhas este objetivo em mente ou foi algo que surgiu naturalmente no teu percurso?

Diria que surgiu naturalmente. É uma competição que acompanha qualquer cozinheiro desde o início da carreira e sempre admirei quem passou por ela. Mas nunca quis correr atrás do título apenas pelo título. O objetivo era crescer, encontrar a minha identidade e sentir que tinha algo para dizer através da cozinha. Quando senti isso, percebi que era a altura certa para participar.

Que obstáculos ou momentos mais exigentes destacarias ao longo da competição?

O maior desafio foi gerir a pressão sem deixar que ela condicionasse a cozinha. A parte técnica prepara-se, mas o lado emocional trabalha-se todos os dias. Na final, o importante foi manter a cabeça fria e cozinhar exatamente como acredito que devo cozinhar.

Em que medida o menu que apresentaste espelha a tua identidade enquanto cozinheira?

Para mim era importante que cada prato tivesse uma ligação às minhas memórias e ao território onde vivo. A cozinha portuguesa tem um património enorme e acredito que ainda há muito para explorar sem perder autenticidade. O menu nasceu dessa vontade de respeitar a tradição, mas com uma interpretação minha.

A competição exige muito mais do que técnica: há também uma grande carga emocional e pressão. Como conseguiste manter o foco e gerir esse lado?

Hoje conheço-me muito melhor do que há alguns anos. Aprendi que nem sempre se controla tudo, mas controla-se a forma como reagimos. Tentei concentrar-me apenas no que dependia de mim: cozinhar bem, confiar na preparação que tinha feito e desfrutar do momento. A equipa e a família também tiveram um papel fundamental.

Foi a segunda vez que participaste, quais foram as principais diferenças?

A principal diferença foi a maturidade. Hoje tenho um restaurante, lidero uma equipa e isso muda completamente a forma como pensamos a cozinha. Já não procuro impressionar apenas pela técnica; procuro emocionar através do sabor e da coerência. Entrei muito mais consciente daquilo que queria apresentar.

Que visão tens da cozinha? Que tipo de cozinha defendes e gostas de praticar?

Gosto de uma cozinha honesta. Interessa-me criar pratos que façam sentido, que tenham identidade e que deixem uma memória em quem os prova. A técnica é importante, mas deve estar sempre ao serviço do sabor.

Se recuarmos aos teus primeiros passos, quem ou o que te influenciou a apaixonar-te pela cozinha?

A comida sempre esteve presente na minha vida através da família e das refeições à mesa. Digo sempre que a minha primeira chefe foi a minha avó Graça. Mais tarde percebi que queria transformar essa paixão numa profissão. O percurso profissional permitiu-me aprender com grandes chefes e em casas muito diferentes, mas também perceber que precisava de encontrar a minha própria voz. Todas essas experiências ajudaram-me a chegar à cozinheira que sou hoje.

O que mais te motiva e inspira no ato de cozinhar?

As pessoas. Saber que alguém escolhe o nosso restaurante para celebrar um momento importante é uma enorme responsabilidade. Também me inspira a sazonalidade, o produto e o receituário português. Há uma enorme riqueza no nosso território e gosto de a descobrir constantemente.

Recentemente, abriste um projeto em nome próprio, em Borba. Vês este como sendo o teu projeto de vida? Se sim, em que medida pode evoluir?

O Esteva é muito mais do que um restaurante; é o projeto onde consigo expressar aquilo em que acredito. Vejo-o como um projeto de longo prazo e quero que continue a crescer de forma sustentável, sem perder identidade. O reconhecimento do Chefe do Ano traz responsabilidade, mas também motivação para continuar a evoluir. O objetivo nunca foi ser a maior, mas sim fazer cada vez melhor.

Autor:

Manja Newsletter

Fotografia:

Adriana Urbano