
A relação entre o solo, os alimentos e a saúde está longe de ser uma ideia nova. O que continua a faltar é uma conversa capaz de juntar quem a estuda, quem a cultiva, quem a cozinha e quem a trata. Para isso nasceu o Coletivo.
O dia começa tímido na Vivid Farms, em Casal Novo da Manobra, nos arredores de Santarém. À entrada, as conversas fazem-se maioritariamente entre desconhecidos. Os nomes, escritos à mão e colados ao peito, ajudam a quebrar o gelo. Há médicos, investigadores, cozinheiros, agricultores, nutricionistas, jornalistas. Gente que olha para a mesma realidade a partir de lugares muito diferentes e que raramente tem oportunidade de conversar. Pelo menos, até agora.
Não é preciso muito para que as apresentações, conduzidas por Paulo Amado, da Edições do Gosto, e Paulo Carvalho, fundador da Vivid Farms, deem lugar às perguntas. As dúvidas sucedem-se. Como é que se mede a qualidade de um alimento? Será possível provar cientificamente aquilo que tantos agricultores e cozinheiros dizem sentir na prática? O que distingue um solo saudável? Porque é que continuamos tão preocupados com os nutrientes de um alimento e tão pouco com a forma como foi produzido?
Cada intervenção acrescenta uma nova camada à conversa. A médica fala de agricultores. O agricultor fala de ciência. Quem estuda o solo acaba inevitavelmente a falar de saúde. E o cozinheiro pergunta como é que tudo isto chega ao prato. É difícil perceber onde termina uma disciplina e começa outra porque, na prática, conclui-se depressa, nunca estiveram verdadeiramente separadas.
Foi precisamente para criar espaço para estas conversas e fazer delas mais do que encontros pontuais que nasceu o Coletivo. Depois das edições de 2024 e 2025 do Congresso de Cozinha, dedicadas aos temas “Pessoas, Natureza, Gastronomia” e “Uma Só Saúde”, Paulo Amado e Paulo Carvalho decidiram transformar o debate em ação. O primeiro encontro aconteceu no outono do ano passado e o mais recente em abril.
"Há um manancial tão grande de conhecimento, mas está fragmentado. Temos de o ligar", diz à Manja Luísa Oliveira, coordenadora do Grupo de Trabalho Solo e Composição de Alimentos.
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